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Cansaço sagrado

  • Foto do escritor: Renato Arruda
    Renato Arruda
  • 6 de abr. de 2025
  • 4 min de leitura

Li no REStart Me Up de Alexandre Campos de Souza e outros autores que o trabalho é um dos poucos motivos válidos na nossa sociedade para um suicídio. Afinal "Estou me matando de trabalhar" é um termo usado por todos, inclusive pelo autor deste artigo.


Aprendemos, aprendi que trabalho não traz prazer ou satisfação. Meu Pai comemorava mais o seu primeiro dia de férias do que um gol do Botafogo. O sextou é mais popular que o #segundou da Simone Damaceno. Ser chamado de workaholic é um xingamento.


Só que todo este aprendizado vem mudando... Como provoca Joseph Teperman no seu livro ANTICARREIRA "Como são seus domingos?" Eles são o último dia da melhor parte da semana ou a véspera da tão esperada segunda-feira?


Acompanho o sofrimento e à imunidade a mudança de muitos colegas. Ouço sobre seu cansaço, sua exaustão e sua incapacidade de chegar com o coração no trabalho. Só o corpo levanta cedo durante a semana para ir ao escritório porque tem os boletos para pagar.


Não culpo nenhum destes colegas. Eu já vivi isso, já estive no mesmo lugar!


Hoje, com os primeiros frutos da minha transição de carreira sendo colhidos, sim sinto cansaço e sim espero pelo descanso mas é um "cansaço diferente".


Trabalhei em um evento durante todo o último Corpus Christi longe da minha família. Dormi menos que o habitual, fiz força física, carreguei o peso mental e emocional por vários dias. Cheguei em casa na madrugada de segunda para terça. Acordei cedo para levar minha filha na escola e então emendei diversos outros trabalhos e mais uma viagem durante o resto da semana. 


Só na 6a de tarde, descansei. Fui na Escola da Marina para uma apresentação dela, almocei com minha esposa, fui à academia e comemos pizza em família. Dormi cedo e acordei no dia sábado quando o sono acabou.


Cansado esperava sim por estes momentos, mas este cansaço diferente era satisfação, uma sensação de dever cumprido, de ter entregue meu melhor pelo que escolhi e pelo que vale à pena. Sacrifício = sacro ofício. Ofício sagrado… Cansaço sagrado.


Lembrando da bíblia: o que Deus fez no sétimo dia? Descanso sagrado.


Começa a semana seguinte e em um coworking que eu frequento vejo uma moça que sempre trabalha ao meu lado dormindo sobre a mesa.


Tiro uma foto dela e depois que ela acorda ofereço um copo de água e puxo conversa. Dois filhos em idade pré-escolar, o companheiro trabalhando em outra cidade durante a semana, nenhuma rede de apoio aqui em Campinas e uma carreira importante na área de Marketing de uma empresa européia. "Estou exausta" me conta ela depois de autorizar o uso da foto.


As mulheres são as primeiras vitimas dessa sociedade do cansaço, de um aprendizado que o trabalho enobrece "o homem". Elas são as que têm menos tempo de descanso, menos horas de sono, menos tempo livre para se cuidar e mais desafios em se realizar no trabalho.


Nós homens culturalmente temos mais espaço para tomar cerveja com os amigos, jogar uma pelada no meio da semana e pescar no Pantanal. Elas seguram sempre a nossa onda.


Claro que conheço e admiro homens que estão sempre cuidando e assumindo responsabilidades pela família, pela casa, pelos filhos e etc além do trabalho. Mas ainda somos minoria…


Voltando para a conversa com minha colega de coworking ela me confessa que "pedir ajuda" é algo que ela não aprendeu. A mãe cuidava de tudo, de todos, e ainda por cima era uma grande jurista no interior do Estado. Só que no seu leito de morte disse à filha "Você trabalha demais, filha. Viva a vida mais leve!"


Me arrepiei inteiro quando ela lembrou dessa conversa com a mãe. 


Quantos executivos, empresários ou profissionais aposentados de sucesso conhecemos que dizem "Queria ter trabalhado menos."


Tenho aprendido que a questão do trabalho não é assim polarizada: trabalhar menos é ser mais feliz e trabalhar mais é ser menos feliz. Estou experimentando uma maior integração destes "dois polos". 


Alguns exemplos…


Como sócio em um restaurante, tenho trabalhado como garçom alguns finais de semana, e minha família vai comigo. Minha filha limpou e minha esposa decorou as mesas. Senti um extremo prazer em servir às pessoas junto à minha família, estávamos todos contentes, bem dispostos e caprichando no serviço.


Como parte de criar experiências de desenvolvimento humano e executivo na MANTIK além de estudar e me preparar, tenho que descobrir lugares e conectar com outros parceiros nessa "produção". Então, meu trabalho dias atrás foi esperar o pôr-do-sol em uma trilha nas montanhas para ver a viabilidade de uma vivência acontecer. Estava com meu parceiro Alexei Angelo Caio e na espera ele me fala "Renato, quem diria que ficaríamos até tarde no escritório hoje, né?!"


Explorando a oportunidade de parceria com startups e healthtechs só consegui conciliar a agenda com um "startupeiro" em um domingo às 19:00. Ao invés da "depressão" que me visitou em um passado distante com a vinheta do Fantástico, eu estava ligado no 220V para aquela conversa no Zoom. Era uma oportunidade muito interessante, inovadora e com um cara muito bacana. Ficamos até quase 23hs "trabalhando"!


Não entendam estes exemplos como uma idealização do mundo do trabalho, ou diminuição do valor do esforço, da disciplina e do "go the extra mile" mas se seu trabalho é só dor, sofrimento, cansaço e desconexão, para isso os médicos já deram nome: burnout.

E na contramão do burnout, deixo vocês com o conceito de Ikigai trazido ao mundo do trabalho. É no Ikigai que estão os worklovers!


Ikigai é uma palavra japonesa que significa "razão de viver", "objeto de prazer para viver" ou "força motriz para viver". Existem várias teorias sobre essa etimologia. De acordo com os japoneses, todos têm um ikigai. E descobrir qual é o seu requer uma profunda e, muitas vezes, extensa busca de si mesmo. (Wikipedia)


E para ver se você está mais próximo do Ikigai como um worklover ou do burnout como um workaholic te deixo 4 perguntas:


O que você ama fazer?


O que você faz bem?


O que o mundo precisa de você?


O que o mundo te paga para fazer?


Boas reflexões!

 
 
 

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