Confiança é como um vaso de cristal
- Renato Arruda
- 31 de mar. de 2025
- 3 min de leitura
Ouvi a palavra pela primeira vez da minha mãe depois de falsificar uma assinatura do meu pai no boletim do Colégio.
“Confiança é como um vaso de cristal, quebrou não tem mais conserto.”
Mesmo depois daquele "crime", minha mãe seguiu confiando em mim.
Anos depois uns “amigos” me chamaram para matar aula e quando vi eles estavam colocando uma bombinha em um bebedouro da Escola. Sai correndo, a bomba explodiu, o bebedouro também e o único que foi visto fugindo da cena do crime fui eu.
Sentado na sala de espera do reitor do Colégio eu ouvia ele falando com minha mãe ao telefone.
Ela chegou uma hora depois esbaforida do trabalho, nem falou direito comigo e entramos juntos na sala do Padre.
O Padre começou a falar sobre como funcionava o processo de expulsão do Colégio e minha mãe o interrompeu: “Padre, não foi meu filho. Pode chamar a polícia científica e abrir uma investigação. Se foi ele, não só está fora da Escola como vai responder pelo que ele fez na justiça.”
O Padre então pergunta: “Renato, se não foi você quem foi então?” E ela responde: “Ele também não é dedo-duro Senhor Padre. É responsabilidade de vocês apurarem o caso.”
Dona Cláudia se levanta, me pega pela mão e saímos pela porta.
No caminho para casa pergunto: “Mãe, como você tem certeza que não fui eu?”
Ela responde: “Você morre de medo de fogos de artifício desde menininho. Nunca vi você machucar ninguém, ou vandalizar nada, pelo contrário. Agora, vai ficar de castigo esse final de semana porque matou aula.“
Diferente de um vaso de cristal, tenho aprendido que a confiança pode ser "cuidada", que ela tem altos e baixos, não sendo estática e binária.
O primeiro conceito que me surpreendeu sobre confiança é que nos separamos entre dois tipos: as pessoas que começam confiando 100% no outro e vão depois "desconfiando" ao longo da relação e as pessoas que fazem o processo contrário; confiam 0 e vão ganhando confiança no outro.
O segundo é que a confiança é uma palavra ampla, com significados diversos para cada um, variando de acordo com sua história própria e experiência de vida "em confiar".
E decompor ou desmembrar a confiança tem me ajudado a cuidar mais das minhas relações de confiança.
Pela ontologia da linguagem e outros estudiosos do tema:
Confiança = sinceridade + competência + credibilidade + compromisso
Todas as quatro dimensões são interconectadas mas a primeira é a principal condicional: sinceridade.
Ser sincero tem a ver com transparência, com tornar públicas as conversas privadas, passando também pela ética, pela vulnerabilidade e auto-conhecimento. Por exemplo: no episódio de falsificar a assinatura do meu pai, obviamente não fui sincero.
A segunda dimensão, competência, é mais simples que a primeira. Por mais que minha mãe seja a pessoa que eu mais confie na vida, quando tive uma arritmia cardíaca não era nela que eu confiava para me tratar e sim em um médico. No episódio da bomba no Colégio acho que foi a competência que fez minha mãe confiar em mim, afinal eu corria sempre de fogos de artifício com as mãos no ouvido e era um total incompetente para plantar um artefato explosivo em um bebedouro.
Depois vem a credibilidade, que é quantitativa, cumulativa e tem a ver com a frase "É preciso comer um quilo de sal para conhecer alguém". Nessa eu também me safei no episódio da bomba porque em 14 anos eu tinha sido sempre pacífico, cuidadoso e delicado com as pessoas, animais e até com as coisas."
Por último o tal compromisso: o que importa, o que é especial para uma pessoa que também é especial e importa para mim. Nessa dimensão: eu sou importante para minha mãe e ela é importante para mim. Nosso compromisso é sólido, só que para ela meu desempenho acadêmico era mais importante naquele momento do que para mim. Dei muito trabalho aos meus Pais nos tempos de escola, certamente a maior desconfiança deles era que eu não levava a escola e os estudos tanto a sério quanto eles esperavam.
A confiança é uma rede que vai sendo tecida dia-a-dia entre nós e as pessoas que nos relacionamos. Merece ser cuidada, mantida e observada todos os dias. É nessa rede que construimos nosso trabalho, nossa família, vida social e comunitária. Então, se quiser aprofundar um pouco mais sobre o tema deixo as seguintes fontes de estudo.
Confie.
Bibliografia, práticas e estudos de Coaching Ontológico na Newfield Network e de Design Ontológico Comportamental na Ontológica
Podcast Elefantes na Neblina: episódio #103
Artigo da Atma Genus
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